23 de junho, 2024

Disco Music nunca foi um gênero musical verdadeiro e não deveria nem ser considerado como tal

Não me entenda mal, eu realmente não tenho nada contra quem gosta, todos são livres para gostarem do que quiserem. Tem gente que gosta de viajar em cruzeiros, tem aqueles que gostam de picanha bem passada, outros que torcem para um time de futebol da Europa, existe gente que fuma charuto e algumas outras adoram fazer artesanato com madeira. Para tudo, tem gosto e adeptos, e eu realmente não me importo com o que as pessoas passam seu tempo, desde que faça bem para elas.

Mas sobre Disco Music, eu preciso contar umas coisinhas.

Tento não odiar um movimento inteiro hoje em dia, pois sempre há algumas músicas da maioria dos gêneros que eu gosto, mas também não sou um purista de nenhum gênero em particular, embora tenha tentado ser, mas meu DNA não está configurado dessa forma.

Vamos nessa!

“Disco”, ao contrário do funk, jazz, rock e outros estilos dos anos 70, não possui qualidades sonoras reais que o distinguem de outros gêneros. Qualquer justificativa sonora para sua existência cai por terra, já que todos os seus elementos vêm da chamada Philadelphia Soul dos anos 60 e começo dos 70 – basicamente música com orquestração, batida de bateria quatro por quatro, vocais em falsete e outros apetrechos. Sim, estamos falando de grupos como Harold Melvin & The Blue Notes, Stylistics e Parliament-Funkadelic. Ou seja, foi a base do que seria a Disco Music.

Agora, isso não seria um problema se a Disco Music fosse estritamente definido como um subgênero do funk/soul que usa a natureza dançante e acelerada combinada orquestrações realmente exuberantes, misturadas com o groove cru, ‘funky’ e os adornos de elementos eletrônicos. Se fosse a Disco Music um subgênero da soul music, estaria tudo bem.

Mas como gênero completo autônomo? Nunca! Impossível! É o mesmo que dizer que o quarteto de cordas é um estilo completo, quando todos sabem que é um subgênero da música clássica.

Ai que a porca torce o rabo! “Disco” tornou-se uma palavra usada para definir qualquer música pop suave e dançante lançada pelas gravadoras no final dos anos 70, em vez de uma palavra usada para descrever uma mistura de dois gêneros musicais para um subgênero.

E é aqui que o problema realmente surge. No final dos anos 70, havia artistas não-R&B (principalmente grupos de rock) tentando lucrar com a tendência “disco”, como KISS, Rolling Stones, Chicago e Whitesnake, ou seja, aproveitaram para criar composições sobre uma ramificação da soul music, que é mais conectada com a dança.

Eles criaram, na verdade, músicas que eram pop/rock dançante, não disco. “Pretty Little Love Songs” de Paul McCartney não é Disco. “I Was Made for Loving You” do KISS não é Disco. Estas são músicas fundamentalmente pop com “roupagem” disco, mas não são Disco em si. Isso seria como dizer que Britney Spears é uma artista de rock porque há uma guitarra distorcida bem pesada em uma música dela. Bem, na verdade, eu não tenho ideia se ela fez isso ou não, mas continuando…

E é por isso que os Bee Gees, que faziam música R & B antes da onda Disco, se tornaram um fenômeno. E acredite, eles eram do final dos anos 60 e odiaram terem sido relegados apenas à Disco Music, pois na real, não eram Disco. Eles criaram música R & B bem animada, misturando o som do Philadelphia Soul com grooves e funk (ou às vezes o contrário) como muitos outros grupos da época de R & B (alô, Earth, Wind e Fire) .

Enfim, muitos grupos de R & B/funk não tiveram a sorte de passar da era disco até os anos 80, por causa desse equívoco. E os Bee Gees estavam em destaque e ficaram marcados como uma das “caras” da Disco. Mas se analisar as músicas dos Bee Gees como músicas, imaginando-as feitas sem o arranjo “Disco”, elas são boas músicas. Sim, aqueles três irmãos eram bons compositores, mas se deixaram ser rotulados como “Disco“ e tiveram que passar por décadas com esta pecha!

Para dar um ponto final na questão de bandas de rock que se aventuraram com esse ritmo dançante, o resultado é rock com “batida disco” Ou você chamaria uma banda que faz muitas baladas de “balada music”? Não, né? Bandas de soft rock com orquestração também não são Disco. Para ser considerado este subgênero. Disco precisa ser, fundamentalmente, soul music, e não uma imitação barata.

E é por isso que acredito que Bo disco, para efeitos práticos, não é um gênero real – mas é, na verdade, um subgênero da música soul, mas não é lembrado como tal.

Agora que deixei claro alguns detalhes, vamos falar sobre o que eu sinto sobre a Disco

O grande Rubens Blades, em 1978, fez uma canção chamada Plástico em que ele critica os latinos que abandonaram seus países e suas raízes para tentar uma vida de aparência nos Estados Unidos e o símbolo máximo desta decadência está explicitada sonoramente no começo da canção que imita o que se escutava nas discotecas, local da moda destes jovens! Era a vida plástica, ou seja, a Disco é a trilha sonora do descartável.

Além do som previsível e sem graça (tudo é quatro por quatro e fim de papo), o som das discotecas quase matou o funk. A maioria das bandas deste estilo, direcionadas pelos empresários e gravadoras, abandonaram seus sons e ritmos sincopados e partiram para aquelas batidas idiotas 4/4!

Eu analiso o seguinte: a Disco foi uma tentativa de aproximar o som negro dos brancos que, na visão de muitos, dançam funk como um boneco de posto em dia de chuva, sem o molejo. Por ser 4/4, precisa de zero habilidade. Era uma marcha triste, para dançar com a cabeça entupida de cocaína em clubes da moda, como Studio 54, point descolado de Nova York!

E essa desgraça contagiou o rock e o jazz fusion, deixando o som das bandas mais pobres tanto no ritmo quanto nas letras.

Veja o que o KISS fez!!! Ah, mas não te convenci? Então vai lá, campeão: compare gravações de James Brown, Kool and the Gang, Herbie Hancock e outros na época pré-disco com as gravações dos anos Disco e você ouvirá os danos. Observe que essas gravações da era disco são geralmente consideradas o ponto mais baixo artístico da carreira desses artistas. Surpresa zero, né?

Para cada música disco “audível” para uma noite – festas de casamento e formatura são perfeitas para essas atrocidades – havia centenas de músicas Disco esquecíveis. Tanto que o estilo morreu rapidinho.

A cena disco era uma tendência horrível para pessoas superficiais, de plástico, como apontou Ruben Blades, que realmente não gostavam ou não se importavam com música. Felizmente não durou muito tempo, 1975-82, mas segue forte em festas de formatura (ninguém tá dando a mínima ali) e em baladas noturnas, onde foi rebatizada de house music.

É previsível, chato, e se derrete com a exposição à luz solar, como o plástico.

Aroldo Antonio Glomb Junior é jornalista e Athleticano

Sobre o colunista

Aroldo Glomb

Jornalista formado. Podcaster. Conhecido no meio da música como “Dr. Rock”.

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