19 de junho, 2024

O emocionante significado de The Checkered Flag (Dead or Alive), do Jethro Tull

Como jornalista e apaixonado pela música, esse tipo de composição me atrai. Juro. São composições que transcendem melodias, letras ou arranjos e criam uma verdadeira conexão com algo maior, algo que arrepia até o osso, com um significado mais profundo, mas, que por algum motivo, nunca “estouraram” dentre as mais lembradas de um artista. É essa a receita de  “The Checkered Flag (Dead or Alive)” do grande Jethro Tull, propriedade de Ian Anderson. A música é de 1976 e quase fecha o disco “Too Old to Rock and Roll, Too Young to Die” e ajuda a contar a história de Ray Lomas, um personagem fictício que é um roqueiro de meia-idade, totalmente perdido, que tem toda dua trajetória contada ao longo das músicas do disco. Nesse momento da timeline do disco, por exemplo, ele acorda e encontra uma última surpresa agradável esperando por ele: um convite para um estúdio de gravação. Uma carreira na música acena! O álbum tem a ideia de trazer as aventuras de Ray como uma estrela pop, mas isso nunca aconteceu. Para o bem ou para o mal, Ian Anderson tinha outro plano. No disco, aliás, vinha até uma tirinha estilo HQ mesmo, contando tudo em detalhes! Esta canção é uma pérola Tulliana que começa com uma pista de corrida qualquer. Atmosfera com freios chiando, pneus queimando, multidões gritando e a bandeira quadriculada cortando o ar no momento em que um piloto, muito cansado, porém, triunfante, vai até o público que está eufórico por sua vitória. Ele está exausto, sim, mas em êxtase.
Essa imagem vibrante é sobre adrenalina, mas já começa a luzir algo inquietante: não é maravilhoso torcer da arquibancada, esteja você vivo ou morto? A música é calma, com arranjos orquestrais e muito teclado – e sem flauta, instrumento característico da banda. Cortamos para a cena seguinte, quando a música fica mais reflexiva, algo intimista, falando sobre a luz do sol que insiste em se infiltrar pelas cortinas iluminando um idoso que está descansando.  Quando uma enfermeira, solidária e gentil, lhe serve uma xícara de chá com ”dois biscoitos”, ele recebe as notícias daquela manhã.
A canção está explorando como é inevitável envelhecer, uma etapa para a morte que se aproxima. Mas o sentimento não é de tristeza, mas de paz. Aquela paz de saber que fez a diferença em algum momento na vida de alguém, que fez sua missão social na jornada da vida. Efemeridade da existência? Busca pela felicidade? É possível diante da mortandade que, como dizia Zé Rodrix, o espelho entrega por ser “um retrato que nunca mentiu”. Aqui, na minha interpretação, é que entra o espectro do personagem do disco, Ray Lomas, já no seu sprint final, pois chegamos na última parte, quando diferentes personagens confrontam, cada um à sua maneira, o momento em que a bandeira quadriculada é agitada. Sim, a bandeira que decretou a vitória do corredor é a mesma que decreta o fim da nossa maior corrida: a da vida. Temos desde a criança natimorta, incapaz de experimentar a aventura da vida, até o compositor surdo, talvez Beethoven, que nunca ouvirá os aplausos finais nas suas últimas apresentações. “The Checkered Flag (Dead or Alive)”  é sobre a fragilidade da vida, sobre sua urgência, sobre a condição humana finita no planeta Terra –  redondo por natureza, mas plana por opção de alguns. O refrão segue ali, com a mesma pergunta: – Não é maravilhoso torcer da arquibancada, esteja você vivo ou morto?
Jethro Tull conseguiu! Uma música intrigante sobre a maior dualidade que existe: vida e morte. Para mim, a canção traz reflexões sobre nossas ações e reconhece que a bandeira quadriculada está nos esperando, mas pode aparecer antes. O piloto do primeiro verso, por exemplo, poderia ter encornado outra bandeira quadriculada se tivesse um acidente. A bandeira, na verdade, é o sinal de que a corrida acabou, na pista ou na vida.
Vale ouvir e se emocionar pensando sobre nossas vitórias, a resignação diante do envelhecimento e sobre a nossa existência, que é efêmera demais para nos sentirmos importantes mais que os outros. O que aprendi e espero que todos aprendam, portanto? Vamos valorizar o presente, nos alegrar com o que somos e que fazemos. O tempo não vai avisar quando a bandeira quadriculada vai acabar nossa curta, mas talvez bonita, corrida. Aroldo Antonio Glomb Junior é jornalista e Athleticano – já falou sobre a banda no podcast Antigas Novidades!
 

Sobre o colunista

Aroldo Glomb

Jornalista formado. Podcaster. Conhecido no meio da música como “Dr. Rock”.

Compartilhe

outros conteúdos

Who Do We Think We Are, a brilhante e desconhecida despedida da MKII do Deep Purple
Precisamos falar sobre Hot Space, do Queen, não é mesmo?
Mike Oldfield, com 19 anos, desbancou todo mundo em 1973 com Tubular Bells
Vale a pena ouvir Exercices (1972), do Nazareth?
Lay Down, Stay Down: uma história de desejo sob a ótica do Deep Purple
Vinil, CD ou Streaming: é a desordem que atrapalha a felicidade musical